
Um preso político e a sede da PIDE/DGS em Lisboa
SURREALISTA Direito à palavraPor Irina Marcelino (texto enviado por mail)«(...) à frente da minha irmã mais velha, na altura com dois anos de idade, um dos Pides ofereceu-lhe um rebuçado em troca do pai. Durante muitos anos, a minha irmã sonhava com monstros». "Fez este ano dez anos. Uma visita de estudo a uma exposição (com peça de teatro itinerante) sobre a vida antes do 25 de Abril deixou-me espantada e emocionada. Na visita, os alunos da minha turma (na altura, o 12º ano) iam acompanhando um grupo de jovens na casa dos 20 anos (provavelmente menos) pelas ruas de Lisboa. Um grupo de pessoas, quase todos estudantes, iam-se apercebendo, tal como nós, que os acompanhávamos, do país em que viviam. No auge da década de sessenta, raparigas e rapazes não podiam dar as mãos. O cigarro tinha de ser aceso com um fósforo (isqueiros só com licença), e uma conversa com mais de três amigos era considerada subversão e podia resultar numa visita às instalações da PIDE ou mesmo numas ‘férias’ num qualquer forte para presos, políticos ou não. Mas isto era provavelmente o menos importante, num país onde mais de metade da população era analfabeta (e continua a ser, mas funcional), pobre e que tinha passado por muitos anos de exploração e de fome (sim, é verdade, fome). As questões iam surgindo nas suas cabeças, tal como nas nossas, e a vontade de fazer qualquer coisa para mudar começava a brotar. Daí até à prisão e à tortura passou pouco tempo. Foi o fim de uma juventude.
Esta viagem no tempo deixou-me muito emocionada. Mas eu, que sou filha de um homem que esteve preso por três vezes por razões políticas antes do 25 de Abril (a primeira vez não; mas foi aí que o meu pai se tornou militante do PCP, até hoje), já sabia ao que ia. Na segunda vez que foi preso, à frente da minha irmã mais velha, na altura com dois anos de idade, um dos Pides ofereceu-lhe um rebuçado em troca do pai. Durante muitos anos, a minha irmã sonhava com monstros. Numa colónia de férias para filhos de presos políticos na Foz do Arelho, numa quinta muito vigiada pela PIDE, as crianças (de 1 ano aos 15, mais ou menos), ela desenhava sempre com cores escuras e chorava nos sonhos. À noite, iam à praia, acompanhados de perto por sombras e faziam uma fogueira para que os papás os vissem do forte de Peniche.
Muitos desses presos nem sequer tinham família ou mesmo consciência política. Eram estudantes (um morreu, às mãos de um PIDE infiltrado na associação de estudantes), trabalhadores (um amigo do meu pai, sindicalista, conta que uma das vezes que foi preso ia acompanhado na carrinha da PIDE por um rapaz muito jovem, com as faces rosadas, que lhe perguntava, muito inocente: “o que é que estamos aqui a fazer”? E ria-se) ou apenas adolescentes (o primeiro preso do Tarrafal tinha, salvo erro, 14 anos de idade quando foi preso com o pai. Ficou por lá seis anos).
Esta viagem de estudo deixou-me também espantada. Com as reacções dos meus colegas, que não sabiam ao que iam. Quase nenhum deles sabia o que tinha sido concretamente o 25 de Abril e muito menos o que se tinha passado antes. Nas suas memórias, a palavra ditadura surgia sem qualquer anexo racional. Hoje, o dia é apenas um feriado, se calhar religioso, que não tem importância.
Este episódio e os sentimentos que despertaram, ressurgiram quando li um artigo sobre um movimento cívico que está a surgir, devagar, é certo, contra, nomeadamente, a construção de um condomínio fechado na malograda António Maria Cardoso, a sede da PIDE em Lisboa.
O movimento pede que se façam museus, que se aproveitem as exposições organizadas por associações cívicas e que se mostrem nesses mesmos sítios onde tanto se sofreu: na sede da PIDE em Lisboa e no Porto, nos fortes de Peniche e Caxias.
Escrevo para apoiar esse movimento e pedir que a memória não se apague. Que não se faça como em tantos outros casos, se passe com uma esponja e se diga que afinal não era assim tão mau."